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Capítulo 03 – Santos profanos, homens mundanos
“Minha cabeça dói. Talvez seja aquele maldito conhaque vagabundo, talvez seja o ar carregado desta cidade.
Ou talvez seja simplesmente mais um problema que acaba de bater a minha porta.”
- Onde aquele maldito foi parar?! Ele não está mais aqui! Ei Ramón! Vamos, acorde seu infeliz! O forasteiro sumiu!
Certamente, não se via viva alma no irromper da manhã. Parece que Deus se esqueceu desta terra, ou que fez a total questão de dedicar todo o poder deste gigante amarelo sobre essa cidade. Mesmo de manhã já era notável o incomodo de se andar longe do abrigo da sombra.
Porém havia um ser que não se importava com esse fato. Caminhava em plena manhã como se nada mais importasse. O que é uma pequena rua comparada a um deserto? Seus passos soavam sozinhos. Um após o outro, e o ruído de suas botas contra o cascalho solto no chão. Onde esse forasteiro estaria indo dessa vez?
Ouço o bronze dos sinos da igreja soando. Várias batidas. “Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang!”. Já marcava nove horas no relógio da torre. E o homem de negro seguia adiante, em direção à entrada da igreja. Seu caminhar parecia cansado. Passos pesados sobre os degraus. Ele para por um instante, como se hesitasse, mas retira seu chapéu em sinal de respeito e adentra o local sagrado.
O interior era um pouco iluminado graças aos vitrais das janelas que permitiam a passagem da luz. Parece ser raro encontrar um lugar com luz elétrica nessa cidade. A igreja foi bastante castigada pelo tempo, e suas pinturas e artes sacras quase todas perdidas, salvo por uma ou outra imagem de santo ou um quadro aqui e ali que ainda era possível ver parcialmente sua imagem. Piso de pedra, concreto… difícil distinguir dada a idade do local. Alguns bancos quebrados jogados num dos cantos junto com alguns escombros do teto que caíram não faz muito, e duas fileiras grandes de bancos com aproximadamente uns 10 em cada fileira.
O forasteiro senta no ultimo banco a sua esquerda. Dá para notar que há alguém mais à frente no primeiro banco. Ao que parece é uma mulher. Sim, ela está ajoelhada, com um manto cobrindo seus cabelos e sua cabeça, algo muito incomum de se ver, já que as mulheres estão mais liberais quanto à religião nestes tempos modernos. Ela parece concentrada em sua prece, de cabeça baixa, pronunciando apenas sussurros inaudíveis. O homem não dá muita atenção à mulher, e continua a fazer seja lá o que ele foi fazer. O que será que ele procura? Redenção por pecados passados? Aparentemente não dessa vez.
O forasteiro se manteve de cabeça baixa. Talvez ele apenas quisesse meditar, ou ficar sozinho em seus pensamentos. Mas nem tudo é perfeito. Ele começa a ouvir passos vindos em sua direção. Outro fiel quem sabe. Porém esses passos estavam bastante apressados, como se o indivíduo quisesse ver algo ou alguém lá dentro.
Um homem de aparência esguia, pouco mais de um metro e setenta de altura, trajando roupas brancas, aparentemente uma espécie de terno, e um paletó laranja. Usava um bastão como apoio e um peculiar chapéu-coco também branco. O homem caminhava a passos largos em direção aos primeiros assentos. Ele estava indo ter com a jovem que estava a rezar, isso era óbvio. Assim que ele se aproxima, puxa repentinamente o ombro da moça a fim de chamar sua atenção. Ao que parece eles iniciaram uma discussão, mas se ouvem apenas sussurros, como se comunicassem por seus gestos agressivos. Então o homem se senta, retira seu chapéu, levanta suavemente o manto da senhorita e fala algo em seu ouvido. Instantaneamente a garota se aquieta, se senta no banco e permanece de cabeça baixa enquanto o homem se levanta e sai em direção a porta. Ao sair, ele fita agressivamente os olhos do forasteiro como se quisesse fazer uma ameaça e vai embora.
Alguns minutos mais tarde o forasteiro decide se retirar. Ele se levanta e percebe que a moça ainda está de cabeça baixa. Talvez esteja chorando, mas não é da sua conta. Antes de sair ele mergulha sua mão em uma pequena bacia com água benta e faz o sinal da cruz, e assim se retira da igreja. Pelo badalar do sino já deve ser dez da manhã. Apesar do sol escaldante, os moradores da cidade começam a aparecer aqui e ali. É possível ver algumas crianças brincando de pique, outras correndo ou jogando bola, e as senhoras e mães desses meninos nas sacadas ou transitando pelas calçadas e conversando sobre a vida alheia. É o que resta numa cidade falida e caindo aos pedaços como esta, e basta um pequeno acontecimento para que tudo vire assunto na boca dessas senhoras como fogo jogado na palha seca. E este forasteiro não estaria livre das más línguas.
- Veja! Saindo da igreja! – Cochicha a senhora Adelaide com a sua comadre ao lado – É o tal forasteiro que o Garcia havia falado mais cedo. Olhe o tipinho do sujeito. Misterioso ele. Boa coisa não é, esteja certa disso Wanda!
E após este “pequeno grande” cochicho, parecia que as janelas de toda a rua se incendiaram com comentários, mas infelizmente dessa vez as senhoras não falaram tão baixo. Aliás, não falaram nada baixo. Como se quisessem que o homem as ouvisse destilando veneno. Mesmo assim o forasteiro seguiu seu rumo até o fim da rua sendo bombardeado com comentários.
“Venha já pra dentro Billy! Não quero você zanzando no caminho desse forasteiro!”
“Nossa, cada tipo mal encarado que tem chegado à cidade. Aposto que está trazendo confusão pra cá!”
“Ouvi dizer que ele tentou assediar a Delilah ontem na taverna do Garcia. Que ser repugnante esse homem é!”
O homem andava tranquilamente, não ouvindo absolutamente nada do que essas velhas murmuravam pelas janelas. Estava indiferente. Algo estava errado em sua mente. E algo estava errado também em sua barriga. A fome já atacava ferozmente este homem, e novamente a cantina do gordo Garcia parecia atraente. A essa altura, as fofocas das velhas ao seu redor eram irrelevantes. E assim o homem vai em direção à cantina.
- Olha só quem está de volta Ramón! – Grita Garcia por de trás do balcão em direção à cozinha – Nosso amigo misterioso, e que a propósito saiu sem pagar!
O homem simplesmente ignora Garcia e vai se sentar no mesmo lugar onde se sentara na noite anterior. O mesmo canto escuro, e novamente dá três golpes fortes na mesa a fim de chamar o cantineiro.
- Em que posso servi-lo novamente senhor? – Fala Garcia ansioso por receber o pagamento pela comida e bebida do dia anterior.
- Apenas me traga uma garrafa daquela urina de cabra que você tem a audácia de chamar de conhaque e um copo, e me diga onde há uma pensão nesse fim de mundo.
- Bom, a estalagem da Margareth fica na rua à esquerda no fim da quadra. Só seguir reto e não tem erro senhor. Espere que já trago sua bebida.
Rapidamente Garcia traz a garrafa e um copo em sua bandeja, a deixa sobre a mesa e se retira em direção ao balcão. Quando se da conta, percebe que o homem estava saindo pela porta segurando apenas seu violão em uma mão e a garrafa de conhaque na outra.
- Maldito! Saiu sem pagar de novo!… Opa, espera ai, o que é isso dentro do copo?
- O que é isso o que chefe? – Indaga Ramón sem entender nada.
- Não acredito! CEM DÓLARES POR TRÊS GARRAFAS DE CONHAQUE? Hahaha, parece que nosso forasteiro andou encontrando uma mina de ouro por ai! – Responde Garcia rindo em altos tons e sorrindo como criança ao ver que o homem havia deixado antes de sair.
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